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  • Miriam Zlochevsky Tunchel

A Importância de um bom briefing


Como começar um projeto novo? No mundo ideal, o primeiro contato com o cliente começa com um contato por telefone (falado ou com troca de mensagens) e na sequência, um encontro presencial.

Sim, este é o mundo ideal. Pessoalmente, acho ruim quando não posso conversar “olho no olho”! São tantas as informações não-verbais que acontecem nestes encontros que perdê-las é empobrecer o briefing.

Mas e quando isto não é possível?

Recentemente recebi um pedido especial para uma capa de livro. O autor é um médico, apaixonado pela escrita e que escreve tão lindamente quanto clinica. Não sei quantos livros já publicou, mas sempre que um é lançado, seus neurônios já começam a agitar, pensando no próximo! Como médico de família, acaba olhando o paciente como um todo, ouvindo suas histórias e tratando o corpo e a alma com o mesmo cuidado.

Desta vez, curiosamente, ao invés de escrever o texto sob a ótica do paciente, fez um livro contando como se sente como médico. O assunto me pareceu fascinante, já que eu nunca imaginei o que pensa e sente o médico, no momento em que está me atendendo.

Este primeiro aspecto foi determinante para o desenvolvimento do projeto. Até aí, tudo bem, mas as circusntâncias deste trabalho tinham outros desafios importantes. O doutor em questão não mora no Brasil... e o livro foi escrito em hebraico!

E agora? Como entender melhor o que está escrito no livro para delinear o desenho da capa? Literalmente tenho que entender o conteúdo! Ainda que eu seja alfabetizada em hebraico, se dependesse da velocidade com que leio um texto nesse idioma, possivelmente o livro seria lançado em 2050! Obviamente que quando ele me contatou, já estava com o cronograma super apertado.

O editor já estava com o miolo diagramado, prontinho para impressão, mas até aquele momento a capa ainda estava pendente.

Foi então que ele me procurou: por favor, preciso de uma capa para o meu livro e preciso logo... o lançamento já está marcado e sem capa não podemos imprimir!

Graças à maravilhosa tecnologia da comunicação, apelamos para uma vídeo-conferência. Primeiro obstáculo superado.

- Ok, vamos lá, me explica um pouquinho do que se trata. Se o livro está em hebraico, não vou conseguir ler o conteúdo suficiente para entender a ideia central (nem a periférica...).

Ele então começou a me contar que este livro se propõe a olhar a figura do médico não como uma entidade que tem atitudes “técnicas” e racionais. O mote central era mostrar o lado humano do médico, abrindo ao leitor o que sente e pensa um médico no seu dia a dia profissional.

Achei super instigante, mas ainda assim me sentia com poucos instrumentos para avançar. Foi então que o Dr. André me mandou o índice do livro que estava... em inglês! Maravilha! Mais uma etapa vencida.

Ao ler o o título de cada capítulo, entendi o quanto de emoção deveria ter naqueles textos e logo me veio a ideia do coração. Mas não o coração como órgão anatômico e sim o coração do imagético... do literário... do romântico! Aquele vermelho, redondinho... bem clichêzão!

E onde este coração cheio de sentimento está? No corpo do médico, entre as muitas camadas que o profissional usa para esconder e exercer seu ofício com toda excelência necessária.

Recortei uma silhueta humana de papel. Fotografei o recorte e digitalizei.

A partir daí combinei com outros recortes e montei as “camadas” que escondem o coração do médico.

As cores foram quase que inexistentes à excessão do coração. Vermelho, quase pulsante! Queria que a primeira coisa que o leitor visse, fosse o coração do médico.

O resultado está na imagem acima. O Dr. sentiu-se representado visualmente.

O editor viu o livro concluído. A designer confirmou mais uma vez que quando recebe um bom briefing, ainda que virtual (não, não é o ideal, mas admito que chega a ser eficiente!), produz algo que vai de encontro com o desejo do cliente.

E não é isso mesmo que almejo?

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